Blog, Saúde

A literatura como apoio ao processo de luto

Março é um mês de muita luta e conscientização, trazendo com ele pautas imprescindíveis e urgentes, como por exemplo a visibilidade feminina. E não por acaso, é também o mês que carrega o Dia da Poesia.

21 de março é uma data dedicada ao texto poético, parte do “lírico”, um gênero literário muito admirado e que agrada os mais diferentes leitores. 

Dentro desse contexto é possível perceber a presença da morte e do luto na literatura como sendo uma importante ferramenta para lidar com o sentimento de perda de um ente querido ou a forma como lidamos com ela. O campo da literatura nos abre caminhos para refletir, vivenciar e superar a ausência, construindo repertórios e acolhendo as emoções.

A certeza da finitude da vida nos leva a crer que as emoções aflitivas como a tristeza, o vazio, a culpa e/ou raiva serão vivenciadas por todos, independente do caminho que escolhemos trilhar, e nessa certeza encontramos a arte como um lugar de descobertas, experimentações, acolhimento, renascimento e consolo.

Viver o luto é a melhor forma de superá-lo! Mas como superar quando não há recursos disponíveis para isso? Como falar sobre a morte se não há alguém com quem eu queira me abrir nesse momento? Como conhecer mais sobre perdas se eu nunca perdi alguém que eu amo? Como superar a perda de um grande amor se eu me sinto sozinho ao voltar para a casa que ficou mais vazia?

Não há receitas prontas! Mas a literatura é uma importante ferramenta capaz de compor um repertório de resiliência, que em conjunto com a construção de uma rede de apoio pode fortalecer e mostrar que a vida, por mais difícil que se apresente, pode voltar a ter sua beleza e alegria.

Dessa forma, o Cemitério Parque dos Pinheiros selecionou algumas obras que tratam a morte e o luto de forma sensível e em diferentes formatos. Anote as dicas, escolha sua próxima leitura e nos conte o que achou. 

Notas sobre o luto, por Chimamanda Ngozi Adichie

Escrito após a morte do pai de Chimamanda Ngozi Adichie em junho de 2020, durante a pandemia de covid-19 que mantinha distante a família Adichie, Notas sobre o luto é um poderoso relato sobre a imensurável dor da perda e as lembranças e resiliência trazidas por ela.
Consciente de ser uma entre milhões de pessoas sofrendo naquele momento, a autora se debruça não só sobre as dimensões familiares e culturais do luto, mas também sobre a solidão e a raiva inerentes a ele. Com uma linguagem precisa e detalhes devastadores em cada capítulo, Chimamanda junta a própria experiência com a morte de seu pai às lembranças da vida de um homem forte e honrado, sobrevivente da Guerra de Biafra, professor de longa carreira, marido leal e pai exemplar.
Em poucas páginas, Notas sobre o luto é um livro imprescindível, que nos conecta com o mundo atual e investiga uma das experiências mais universais do ser humano.

Era tão próxima do meu pai que sabia sem querer saber, sem saber inteiramente o que sabia. Uma coisa dessas, temida durante tanto tempo, finalmente chega, e na avalanche de emoções vem também um alívio amargo e insuportável. Esse alívio se torna uma forma de agressão, e traz consigo pensamentos estranhamente insistentes. Inimigos, atenção: o pior aconteceu. Meu pai se foi. Minha loucura agora vai se revelar.”

A desumanização, por Valter Hugo Mãe

Na paisagem gélida da Islândia, a menina Halla, de apenas onze anos de idade, busca compreender os sentimentos que surgem com o falecimento de sua irmã Sigridur. Vivendo a divisão permanente das “crianças espelhos”, Halla nos guia por impressões de transitoriedade e perda a partir do seu ponto de vista infantil e, por isso mesmo, cheio de uma simplicidade profundamente poética. O sofrimento do luto, a solidão e a violenta frieza da mãe se misturam com a paisagem inóspita da Terra do Gelo e, somados à narração lírica e melancólica de Valter Hugo Mãe, em que o desamparo dos personagens é superado por uma compreensão sublime e bela de sua condição, transformam esta obra em um primor da literatura contemporânea.

O peso do pássaro morto, por Aline Bei

Quantas perdas cabem na vida de uma mulher? Em um texto poético, acompanhamos uma mulher que, dos 8 aos 52 tenta, com todas as forças, não coincidir apenas com a dor de que é feita. Apesar de se tratar de uma obra voltada ao público adulto, diz respeito diretamente à criança (a que fomos e as que fazem parte da nossa vida), e pode ser uma leitura fundamental para quem lida com crianças e adolescentes, principalmente pelo grau de importância que a história dá a tudo aquilo que acontece nos primeiros anos de vida – na narrativa, essa é a base de uma série de acontecimentos que – é essa a impressão que fica – poderiam ter sido evitados.

O ano do pensamento mágico, por Joan Didion

Joan Didion é uma escritora norte americana bastante aclamada nos Estados Unidos e em diversos outros países. Em “O Ano do Pensamento Mágico”, ela compartilha as experiências que viveu durante o período em que perdeu seu marido e teve que lidar com a doença da filha. Trata-se de uma história bastante tocante que mostra a forte ligação que tinha com a família e como conseguiu compreender o luto.

Para o público infantil

O Pato, a Morte e a Tulipa, por Wolf Erlbruch

Para falar sobre a morte com crianças, esse livro traz poesia, delicadeza e emoção.

Prêmio Hans Christian Andersen pelo conjunto da obra, o alemão Wolf Erlbruch dá sequência, neste lançamento, às suas inquietações sobre o nosso lugar no mundo. Se em A grande questão procurava respostas para “por que viemos ao mundo?”, em O pato a morte e a tulipaquestiona “para onde vamos” por meio de uma amizade incomum. Se dizem que a morte nunca atrasa, o autor nos mostra que, ao conhecer e se encantar com um pato, ela perde a noção do tempo e até desfruta um pouquinho da vida. O pato a ensina a mergulhar no lago, subir em árvores e tirar uma soneca. E onde a tulipa entra nesta história? A resposta cabe ao leitor.

Também para o público infantil, ÉAssim, por Paloma Valdivia, é um convite sensível para tratar do assunto que faz parte da vida. 

É assim, por Paloma Valdivia

De onde viemos e para onde vamos? Se desconhecemos o ponto de partida e de chegada, se nascer e morrer são apenas instantes, o que importa é desfrutar o presente e a companhia dos outros, saboreá-los o máximo possível, com leveza e alegria. Partindo da ideia de que as coisas têm dois lados, de que nem tudo é totalmente bom ou mau, e movida pelas perguntas difíceis sobre a vida, Paloma Valdivia cria histórias, orientadas antes de tudo pela emoção e pelo traço sensível.